Durante homenagem ao amigo morto, sertanejo associou “lado direito” à política e transformou um momento de luto em discurso ideológico.
Zezé Di Camargo usou uma homenagem a Rick Sollo para fazer uma manifestação política durante um show em Frutal, Minas Gerais. Ao falar sobre a morte do amigo, o cantor abandonou por alguns instantes a memória do compositor e transformou a expressão religiosa “lado direito de Deus” em uma defesa pública da direita brasileira.
Zezé Di Camargo afirmou que as coisas boas ficam do “lado direito” e declarou esperar que o Brasil também esteja “totalmente” desse lado em breve. A fala provocou revolta porque foi feita enquanto o sertanejo comentava uma tragédia recente, que deixou uma viúva, dois filhos, quatro netos e milhares de fãs profundamente abalados.
Não se trata de questionar o direito de Zezé expressar suas preferências políticas. O problema está na escolha do momento e na utilização da morte de um amigo como introdução para um recado ideológico. Rick deveria ocupar o centro daquela homenagem, sem ter sua despedida reduzida a um jogo de palavras destinado a agradar uma parcela do público.
Zezé Di Camargo transforma luto em discurso político
Antes da declaração, Zezé contou que alterou sua logística para comparecer ao velório de Rick, realizado em Sorocaba. Disse que tinha um compromisso com o próprio coração e precisava se despedir do amigo. O relato poderia ter conduzido uma homenagem sensível, especialmente porque os dois compartilhavam uma relação construída desde o início da carreira de Rick e Renner.
Entretanto, a lembrança foi atravessada por uma provocação sobre o cenário político brasileiro. A mudança de tom causou indignação nas redes sociais. Internautas classificaram a atitude como falta de respeito e criticaram o fato de uma despedida ser usada como oportunidade para defender posicionamento político às vésperas das eleições de 2026.
Rick merecia homenagem, não discurso de campanha

Rick foi um dos grandes compositores da música sertaneja e escreveu canções gravadas por diferentes artistas. Entre elas está Fazer Amor, registrada por Zezé Di Camargo & Luciano em 1993. O próprio Zezé reconheceu que o amigo deixou o país órfão de obras que o público talvez nunca tenha a oportunidade de conhecer.
A trajetória de Rick oferecia material suficiente para uma homenagem digna. Bastava recordar sua voz, suas composições, a parceria de quatro décadas com Renner e a generosidade demonstrada nos bastidores. Inserir uma disputa entre direita e esquerda em um momento como aquele desviou a atenção do artista e transformou a dor em combustível político.
Rick morreu aos 59 anos na queda de um helicóptero na Serra Catarinense. Também morreram o empresário Bruno Avelar, o videomaker Paulo Soares, o piloto Antônio Roberto Nóbrega de Araújo e o copiloto Leopoldo Barros Teixeira. A dimensão da tragédia exigia respeito às cinco vítimas e às famílias que ainda tentavam compreender a perda repentina.
Zezé Di Camargo tem liberdade para defender qualquer corrente política, mas poderia fazê-lo sem usar a morte de Rick como cenário. A indignação dos fãs nasce justamente dessa mistura desnecessária. Uma homenagem deveria preservar a memória de quem partiu, e não funcionar como palanque para antecipar discursos eleitorais ou dividir o público entre direita e esquerda.