Vale a pena prestar atenção no EP solo de Zezé Di Camargo?

Zezé Di Camargo lançou seu primeiro EP solo intitulado “Rústico”, e a qualidade do trabalho pode surpreender a quem achava que o cantor já estava acabado

No último dia 11/02, o cantor Zezé Di Camargo lançou o EP do seu trabalho solo intitulado “Rústico”. Há pouco mais de dois anos o Movimento Country antecipou com exclusividade sobre o primeiro trabalho que o cantor estaria realizando sem o seu irmão, Luciano. Já te contamos também que a dupla, que estava com a relação bem desgastada, esperou a morte do pai, Seu Francisco, em 2020 e o fim do contrato com a gravadora Sony Music para dar início aos projetos solos.

Faz muito tempo que Zezé Di Camargo está na mídia por questões que nada têm a ver com a música. Nos últimos anos, quem procura o nome do cantor encontra relatos sobre o divórcio, após décadas de casamento com Zilu, o polêmico relacionamento com Graciele Lacerda, que, inclusive, não teria a aprovação dos três filhos do artista, além das infinitas brigas com o irmão Luciano e as notícias sobre morte e doença na família Camargo. Ok, é um celebridade, e como ocorre com todos os famosos, o público quer saber da vida pessoal. Mas, e a música?

Não vou mentir, eu também pesquiso e leio sobre a vida pessoal dos artistas. Porém, o que eu vou dizer vale para Zezé Di Camargo e para qualquer outro cantor (sertanejo ou não): o que mais me interessa é a música, o lançamento, o projeto profissional, o que aquele artista admirado por tantos tem feito para entregar ao seu público, tão fiel, muitas vezes. Se falamos muito mais da vida pessoal do que da música, é sinal que ou o artista não tem feito nada ou, na maioria dos casos, tem investido em trabalhos sem relevância. O que eu sempre acho uma pena.

Zezé Di Camargo é sem dúvidas um dos maiores nomes da música sertaneja de todos os tempos. Seu valor e talento como artista são incontestáveis! Lá nos anos 90, quando o sertanejo tinha meia dúzia de artistas de expressão nacional, eu, adolescente, gostava de rock e de músicas internacionais (beijo, Axl Rose!), mas tinha todos os primeiros CDs da dupla Zezé Di Camargo e Luciano. Cantava “Cara ou Coroa”, “Coração na Contra Mão” e “Foi a Primeira Vez” aos berros em casa. Por anos me perguntei onde foi parar aquele Zezé.

Não é segredo que o cantor enfrenta sérios problemas com a sua voz e não faz tempo que abandonei uma live dos “Amigos” porque não suportei ouvir Zezé. Ninguém está livre de problemas de saúde, mas acho que a voz é o instrumento de trabalho de um cantor. Zezé Di Camargo poderia ter se aconselhado com Xororó (pra mim, o melhor de todos). Diante de tudo isso, fui ouvir “Rústico” com a mesma expectativa de quem ouviu “Homem Safado” do Leonardo e não gostou, e foi aí que eu me surpreendi, positivamente. Se você já curtia o trabalho do cantor, vale a pena dar uma olhada no EP.

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O primeiro acerto é colocar aquele “Ao Vivo” ao lado do nome de cada música. Se há tanto tempo se fala que Zezé Di Camargo perdeu a voz e não consegue mais cantar, nada melhor do que um projeto ao vivo para contestar isso. Certo? Em parte, sim. Sabemos que mesmo os álbuns ao vivo têm um trabalho de pós produção e aí se corrigem os “defeitos”. O palco e o show ao vivo são ainda o real termômetro de qualquer cantor, mas pra quem correu sério risco de parar a carreira de vez, Zezé até que se saiu muito bem.

Esqueça o Zezé Di Camargo de 30 anos atrás. As pessoas envelhecem (e acho que ele está muito bem para os seus 59 anos). Acontece com todo mundo. O sertanejo tem dificuldade de alcançar as notas realmente altas, que agora são bem menos numerosas que antigamente. Aliás, baixar o tom de tudo me parece a saída mais inteligente (pra não cometer os mesmos equívocos vocais do Bruno na última live do Cabaré. Assista “Facas” no fim da live). Zezé também sofre um pouco com as finalizações de frase e registros mais baixos, tem um sopro incômodo na voz. Nos tons médios, porém, ele segue muito bem e eu ouvi cada nota com uma certa nostalgia gostosa no coração.

Em termos de repertório, mais acertos. O EP têm 5 faixas, incluindo uma regravação da linda “Pedras”, do álbum da dupla de 1995. Zezé inclui algumas das modinhas do momento, músicas que incluem palavrão e falam de bebedeira, como “Vou ter que tomar uma” e “35 latas de cerveja”. Já reclamei aqui na coluna dessa narrativa porre atrás de porre, mas Zezé Di Camargo consegue abordar o tema com certa classe e com uma sonoridade que me lembrou faixas antigas. Manteve mesmo assim sua identidade musical. Mais um ponto pra ele.

“Fraude” e “Banalizaram” falam de amor de um jeito mais poético, que andou bastante em falta no sertanejo atual. Temos visto uma mudança positiva de rumo nesse sentido, mas, desculpa, o combo pegação e bebedeira não entra na minha playlist. As faixas de Zezé são, então, um bom alívio. Não que eu esperasse dele letras de mau gosto, mas tem gente aí da velha guarda caindo nessa armadilha. Zezé ainda soa como Zezé, inclusive nas rimas. E o gol final foi chamar um casal moderninho (agora ex- casal, diga-se) para estrelar o videoclipe de “Banalizaram”, que chegou com o EP e está disponível no YouTube. Pra quem não viu, Gabi Martins e Tierry são os protagonistas.

Considerando que o álbum gospel de Luciano também é bom, parece mesmo que essas “férias” da dupla (com a maior cara de fim mesmo) estão fazendo bem para os dois irmãos. Quem pode comemorar é o fã raiz de sertanejo, que nunca esqueceu Zezé Di Camargo. Tomara que a geração atual veja no EP a oportunidade de conhecer melhor um grande artista e revisitar sua vasta obra. Bem vindo de volta, Zezé! Senti saudades.

Sobre Dyala Assef: colunista do Movimento Country, escritora, professora universitária, e ouvinte voraz de todos os estilos de boa música.